Uma lição que vem dos Bálcãs: jogar é bom!

Foto: O lituano Eugenijus Stratilatovas palestra durante o Seminário Internacional Biblioteca Viva (Equipe SP Leituras)

 

“Se você perguntar ao público o que é biblioteca, ele vai responder, na sua maioria, que é um lugar apenas de livros”, disse, com perplexidade, o lituano Eugenijus Stratilatovas no início da sua palestra sobre “Videogames e ambientes interativos em bibliotecas: por que precisamos deles?” na 11ª edição do Seminário Internacional Biblioteca Viva. Na Lituânia ainda existem bibliotecários que acham que este não é um lugar para jogos, porque eles viciam as crianças e não são úteis. E muito mais gente pensa como os lituanos e associa bibliotecas exclusivamente aos livros.

Dito isso, o palestrante, vindo de um país bem pequeno se comparado ao Brasil, localizado ao norte da Europa, no Mar Báltico, tratou de explicar – e exemplificar com o caso da própria Lituânia – por que a tecnologia, os videogames e os ambientes interativos são necessários e grandes aliados das bibliotecas. “Precisamos deles simplesmente porque trazem conhecimento, embora muitos de nós ainda consideram que exclusivamente os livros são este lugar”, disse Stratilatovas, que contou com mediação de Luiz Ojima Sakuda, da consultoria da área de jogos digitais Homo Ludens.

De acordo com esta nova agenda das bibliotecas, o conhecimento vem dos livros, claro. Mas não apenas deles. Somos capazes de aprender a partir da prática contínua. “É por isso que as bibliotecas têm que ter espaços “maker ” – importantes na educação e na pedagogia”, diz o palestrante. Crianças com dificuldades na escola se interessam e têm bom desempenho nas oficinas. E as bibliotecas podem ser um local para as pessoas se sentirem bem.

Mas por que então incluir jogos? Porque a inteligência, além do que já foi aprendido nos livros e nas escolas, tem a capacidade de aprender coisas novas. “Na biblioteca, para continuar aprendendo, há necessidade de que esse espaço desempenhe o papel completo do conhecimento, fazendo as duas coisas”, diz Stratilatovas.

Assim, jogar ou participar de oficinas é aprender lições que estão fora dos livros. Na Lituânia, as bibliotecas têm incluído, gradativamente, atividades que vão muito além da leitura como maratonas de jogos (game jam), concertos de música, feiras de livros, experiências de realidade virtual. Os jogos são tão atraentes, diz Stratilatovas, porque possibilitam vivenciar o personagem, dão a sensação de conquista, significado, de sentir-se pertencente a um grupo e, ainda, a sensação de competência e autonomia.

A discussão vai ficando complexa, mas Stratilatovas diz que o ideal é simplificar o processo. “Faz mais sentido criar jogos com os usuários e não para eles! Não é preciso criar algo milionário, mas atrai-los para a biblioteca – a experiência poderá ser divertida”, pondera o palestrante. Ele sugere começar com jogos com menor desenvolvimento, que possibilitem conexões com a cultura, seja ela dos livros ou das imagens.

Nessa tentativa de criar relações horizontais, não deve haver diferença entre os criadores dos jogos e o bibliotecário. Ele fornece ferramentas que podem ser um computador, um jogo de peças para montar ou um martelo e auxilia com instruções, favorecendo um ambiente seguro onde todos podem experimentar e errar.

Este é o verdadeiro convite para entrar em uma biblioteca.

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O caso da Lituânia – virando o jogo

Stratilatovas carrega a experiência de ter gerenciado um dos maiores projetos de inovação social da Lituânia, “Libraries for Innovation 2”, financiado pela Fundação Bill e Melinda Gates. Este plano mudou a forma de pensar o desenvolvimento de serviços centrados no usuário em 57 bibliotecas municipais do país que tem população de 2,8 milhões de habitantes.

O ponto de partida para a transformação das bibliotecas de seu país aconteceu em 2015 e começou com indagações aos diretores de bibliotecas, usuários e não-usuários. Os líderes não consideravam como seu o problema da escassez de público. Argumentavam, explica o palestrante, que havia um problema social, com muita gente jovem imigrando para outros países da Europa em busca de oportunidades, ou recursos financeiros insuficientes. “Eles pensavam que sabiam das necessidades e dos desejos da comunidade. E quando a gente perguntava para eles se tinham parceiros, se ter parcerias é algo útil, algo necessário para as bibliotecas…isso parecia controverso – Por que um banco iria querer formar uma parceria com uma biblioteca? E os políticos, por que se interessariam por uma relação assim? ”

As pesquisas de usuários nortearam as mudanças, que partiram de sugestões da própria comunidade. Então, o projeto foi estruturado com base em quatro pilares válidos para todas as bibliotecas do país e ajustáveis às particularidades dos territórios. Leia abaixo os comentários de Stratilatovas:

Contexto:

Em primeiro lugar, o projeto precisa ser importante para a biblioteca. Temos que entender em que contexto a biblioteca está – porque as bibliotecas não estão sempre no mesmo contexto.

Pertencimento/propriedade:

Um segundo ponto é que queremos que as bibliotecas sintam que este é um projeto delas e não algo que lhes foi entregue sem que a biblioteca sequer precisasse. Um exemplo que ilustra bem a ideia é daqueles casos em que projetos envolvendo fundações e o governo entregam computadores e outros equipamentos para as bibliotecas e eles ficam guardados num canto ou na sala do diretor. Basicamente significa que as bibliotecas não sabem o que fazer com aquilo.

Acesso:

Precisamos tratar do acesso à informação e ao conhecimento. Essa é uma responsabilidade também das bibliotecas.

Sustentabilidade:

É uma palavra coringa, da moda, mas a ideia é que precisamos considerar a durabilidade do que estamos propondo. Qual será seu efeito em 10 anos? A natureza é sustentável. As empresas também precisam ser sustentáveis para sobreviver.

 

As bibliotecas e o cachimbo de Magritte fazem parte da Economia Criativa

Foto: Palestrante Cláudio Lins de Vasconcelos (Equipe SP Leituras)

Literatura, obras de arte, games, shows e artesanato são, entre tantos outros bens e serviços, parte do ambiente de negócios da chamada economia criativa. Para funcionar, esta indústria depende essencialmente das pessoas e sua criatividade.

Há 30 anos, a ideia de associar a importância de áreas ligadas à criatividade com o crescimento econômico de um país começava a ganhar espaço.  “Atualmente, a economia da cultura é vital para o desenvolvimento”, afirmou o advogado Cláudio Lins de Vasconcelos, que participou da 11ª edição do Seminário Internacional Biblioteca Viva.

Na palestra “A Economia da Cultura como Eixo de Desenvolvimento Estratégico do Brasil”, Lins de Vasconcelos, que contou com a mediação de Christiano Lima Braga, coordenador da Unidade de Difusão, Bibliotecas e Leitura (UDBL) da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Estado, destacou que o capital intelectual do Brasil pode alavancar um salto estratégico de crescimento econômico.

“O nosso setor depende exclusivamente de pessoas. Os robôs não poderão produzir arte que é a linguagem do assombro e da inteligência. Este é um lugar de fala humano”, diz.

Obra de René Magritte

A tecnologia faz coisas incríveis. Mas, segundo ele, somente os artistas conseguem produzir algo como a obra Ceci n’est pas une pipe, (Isto não é um cachimbo), do pintor surrealista René Magritte. “Se isso não é um cachimbo, o que é? É essa perplexidade, essa comunicação que faz a arte ter um valor inestimável – e a tecnologia tem as suas limitações”, reflete o palestrante.

Segundo Lins de Vasconcelos, o conteúdo cultural, produto da criatividade humana, está espalhado por tudo: cinema, teatro, dança, música, design, mercado editorial e até nas bibliotecas. Todas essas atividades reunidas movimentam, segundo pesquisa da consultoria empresarial Ernst & Young, de 2015, US$ 2,17 trilhões, em todo o mundo.

No Brasil, de acordo com mapeamento publicado pela Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan) em 2016, o setor gerou R$ 155 bilhões para a economia brasileira, montante equivalente a 2,6% do PIB brasileiro.

 

Mapeamento da Firjan, de 2016

 

De acordo com o relatório publicado pela Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (Unctad) sobre as tendências internacionais de comércio nas Economias Criativas, entre 2002 e 2015, a expansão global especialmente na moda, cinema, design e artesanato está contribuindo para o Produto Interno Bruto das nações, exportações e crescimento. Na lista dos dez maiores exportadores, entre países em desenvolvimento, figura a Índia, integrante dos BRICs como o Brasil.

“A cultura não é um setor para se virar as costas e o Brasil tem vantagens comparativas. Esta é uma área em que somos bons”, diz o advogado.

Em sua apresentação, Lins de Vasconcelos diz que o país tem vocação. “Temos de Villa-Lobos à Anitta e também novelas, filmes, publicidade e dança. Olha o valor econômico disso”, contabiliza. Entre as vantagens competitivas dessa indústria, ele destaca a menor dependência do estado brasileiro.  “Precisamos de infraestrutura de rede, de produção audiovisual, de bibliotecas e, por meio da cultura causamos impactos muito positivos na educação: Quando assistimos a um filme, ficamos diferentes. A cultura, felizmente, é contagiosa”.

No encerramento, o mediador da palestra Christiano Lima Braga pontuou: “As externalidades da cultura são contundentes, além de reduzirem a violência, a depressão. Nós somos reconhecidos lá fora, o que prova a potência da cultura. Mas há a necessidade de interação do Brasil com o mundo e do Estado cuidar disso de maneira eficaz”.

Mediador Christiano Lima Braga

SisEB celebra 35 anos com série de vídeos sobre bibliotecas fantásticas

Você já entrou em uma biblioteca mal-assombrada ou em alguma outra em que os livros eram comestíveis? Sim, isto é possível. Na série de vídeos produzidos para o Sistema Estadual de Bibliotecas Públicas de São Paulo (SisEB), dentro da celebração de seus 35 anos, as bibliotecas são fantásticas e imaginárias.

Com roteiros de José Roberto Torero, foram lançados quatro vídeos durante a 11ª edição do Seminário Internacional Biblioteca Viva. Neles, o ator Arô Ribeiro conta histórias encenadas e filmadas com personagens em miniatura que saem de uma pequena maleta.

Ambientadas em cidades fictícias, as narrativas explicam o significado de Biblioteca Viva. Essa premissa contemporânea que faz com que os frequentadores sejam o ponto de partida de todas as ações e motivações das bibliotecas. Um espaço onde é possível aprender, conhecer, experimentar e conviver.

Se você ficou curioso para conhecê-las, assista:
https://www.youtube.com/channel/UCk5mlz0-fdsoCv-_y7_eEcg

Ficha técnica:
Filmes:Biblioteca de Banquete/Biblioteca de Nossa Senhora da Terceira Margem/Biblioteca de Estrela do Leste/Biblioteca de Jururu
Roteiros: José Roberto Torero
Ator: Arô Ribeiro
Direção: Duda Ferraz e Gustavo Figueiredo
Direção de arte: Fernanda Schaberle
Minimobiliário: René Misumi
Produção: Samambaia Filmes
Execução: SP Leituras
Realização: SisEB

Eva Furnari e Pedro Bandeira, um encontro com a palavra

Os escritores Eva Furnari e Pedro Bandeira, ambos com extensa e premiada obra infantojuvenil, foram convidados especiais da 11ª edição do Seminário Internacional Biblioteca Viva. Eles não se encontraram pessoalmente durante o evento porque Eva participou da abertura e Pedro, do encerramento. Mas mesmo sem o encontro “ao vivo”, suas ideias convergem para uma mesma trilha: a da palavra.  Falaram sobre a importância da leitura para a formação das crianças, da tecnologia e do formidável papel que os bibliotecários desempenham, facilitando a descoberta e o encantamento com os livros pelas pessoas. Destacamos aqui, neste encontro virtual, algumas de suas ideias.

 

[ Formiguinhas ]

Eva – “Para mim, os professores, os educadores e os bibliotecários são parceiros. Eles são esses heróis anônimos que trabalham no dia a dia, como formiguinhas, com as crianças. Os escritores também são assim. Me sinto, por isso, um pouco parceira deles.”

Pedro – “Sem vocês, bibliotecárias, educadores, não há futuro no Brasil. Vocês fazem a mediação da leitura, e é por isso que eu tenho esperança.  Seduzir, contar histórias, ver que ali existe um mundo maravilhoso, conquistar o frequentador… Eu fico impressionado que às vezes vocês fazem verdadeiros milagres! ”

[ Liberdade e compreensão do mundo ]

Eva – “A literatura infantojuvenil é um espaço com liberdade intrínseca, onde o foco principal é o ser humano. Possibilita discutir a condição humana. Não está a serviço de nada. Aceita as nossas contradições, nossos conflitos e lida com isso. Na democracia precisamos aprender um monte de coisas sobre o mundo e o livro infantil é uma boa fonte para isso. ”

Pedro – “Os contos de fadas e as histórias maravilhosas são fundamentais para a formação das pessoas. ‘João e Maria’ lida com o medo universal das crianças do abandono pelos pais. A história é uma representação da realidade que faz a criança sentir o problema sem ter que vivê-lo na realidade.  Este processo de conhecer o mundo faz com que as pessoas amadureçam. ”

[ Tecnologia – sim, e daí? ]

Eva – “Os eletrônicos são viciantes, sedutores. O cérebro anda à jato e o corpo e a alma andam a pé. E a literatura pode ajudar nesse equilíbrio. Ela traz o tempo de sonhar, do andar a pé, de devolver a integridade à humanidade”.

Pedro – “A culpa do assassinato não é da faca. A tecnologia só veio para ajudar, não ameaça os livros. Como a roda e a domesticação do grão, a internet mudou o mundo. Nunca se fechem para a tecnologia”.

[ Onde tudo começou ]

Eva – “Eu fui uma criança introvertida, com 8,5 graus de hipermetropia. Minha mãe nos contava histórias. Eu olhava as imagens. Aos 14 anos fiz aulas particulares de aquarela. Venho de uma família, com físicos, químicos, engenheiros. Eu mesma, antes de estudar arquitetura, frequentei por um ano a Faculdade de Física. Me dei bem na arquitetura porque tinha a continuidade com a lógica, mas também uma parte importante de sensibilidade artística. ”

Pedro – “Estudei Ciências Sociais e fui parar no jornalismo por acaso. Trabalhando na Editora Abril, escrevia revistinhas que circulavam em bancas. Dali para os livros foi um pulo. E então, comecei a escrever obras que eram adotadas pelas escolas. Estudei pedagogia e psicologia do desenvolvimento para entender melhor as crianças. Eu não tive pai e minha mãe não tinha grande cultura. Mas eu adormecia ouvindo histórias no colo. Isso para mim foi muito importante. Aprende-se a ler, lendo. É como andar de bicicleta e nadar. Precisa praticar”.

[ O leitor ]

Eva – “Hoje o texto e a imagem andam de mãos dadas e as histórias começam no computador, nas palavras. Existem rascunhos complexos para chegar à simplicidade da aquarela e entre outros, os desenhos das crianças me influenciam bastante”.

Pedro – “A minha fonte é o leitor. Eu tenho que saber qual é a faixa etária para a qual eu estou escrevendo, para, a partir dali, criar as histórias. Só assim vou compreender o universo emocional, o repertório do leitor com todas as suas nuances”.

[ O desafio ]

Eva – “O cerceamento é comum. Eu tinha uma ideia de ilustração que não combinava com o que eu fazia, mas achava que eu devia fazer. Essa busca é a conquista de uma vida inteira”.

Pedro – “Shakespeare escreveu em 1600, e continua sendo atual. Ele é importante não porque fala de reis, mas porque aborda os sentimentos humanos. A minha literatura trata de emoções, que são sempre as mesmas”.

 

Um novo jeito de ‘ser’ biblioteca

Foto: Sven Instinske, da Bucherhallen Hamburg, e o mediador Luciano Borges Almeida, da Universidade Mackenzie. (Crédito: Equipe SP Leituras)

O que mais interessa na discussão sobre o impacto tecnológico pelo qual as bibliotecas contemporâneas estão passando é que o essencial – o local de encontro – se mantenha preservado.  Foi com esta abordagem humanista que o convidado alemão Sven Instinske desenvolveu suas ideias em torno do tema “Internet, smartphones, games e making spaces: recursos atuais para interação digital”, durante o 11º Seminário Internacional Biblioteca Viva.

Instinske vive e trabalha em Hamburgo, a segunda maior cidade alemã, com 1,8 milhão de habitantes, dos quais 35% são imigrantes. Como chefe de serviços eletrônicos da Bücherhallen Hamburg, rede pública municipal de bibliotecas composta por 33 unidades espalhadas por bairros e duas unidades móveis, ele está às voltas com o licenciamento de filmes, ebooks, aquisição de games não violentos. Mas isso é apenas parte do que compõem a ‘sala de estar’, apelido carinhoso das bibliotecas em seu país.

A biblioteca, para cumprir efetivamente seu papel, deve possibilitar que seu público se sinta à vontade, e isso pode ser traduzido por relações horizontais e diálogo. Sim, na Bücherhallen é permitido comer, jogar, fazer barulho, aprender coisas novas. E ler. Orientado por este novo jeito de ‘ser’ das bibliotecas, Instinske explicou à uma plateia atenta de mais de 850 estudantes, bibliotecários e educadores, como lida com os novos desafios.

As competências do brincar

A nova geração de bibliotecas implica em mudanças de perfil profissional, de acervo, de mobiliário. “Não podemos mais fazer compras físicas como há alguns anos. E precisamos aprender a produzir um evento de games, por exemplo, de uma hora para outra. Diante desses desafios, nos abrimos para outros profissionais e isso faz bem para todos”, aponta Instisnke, que como seus colegas de equipe, tem formação em biblioteconomia.

Para afiar os funcionários em novas mídias, a biblioteca iniciou parcerias com universidades. A equipe treinada é multiplicadora de conhecimento para os colegas, que também podem estudar a partir da consulta a um guia com informações.

Além disso, foram feitos treinamentos para utilizar melhor o banco de dados e os aplicativos e cursos na plataforma de ensino à distância.  “Isso ajudou os colaboradores a enxergarem melhor as nossas ofertas digitais que pareciam não estar visíveis para eles”, aponta Instisnke.

Lidar com a mão de obra é um processo bastante delicado. Ao mesmo tempo em que há a necessidade de reciclagem de conhecimento, existem também os colaboradores que resistem à mudança. E a complexidade dessas relações e a abordagem feita pelo palestrante Instisnke chamaram à atenção da bibliotecária Daniela da Guarda, de Cubatão. “Achei interessante ele dizer que lidar com funcionários com 30 anos de carreira, que têm resistência a fazer cursos de atualização, exige tato e sensibilidade”.

Em paralelo à oferta digital, a biblioteca é o espaço de fazer coisas, criar com as próprias mãos, de desenvolver a “cultura maker”.  E na biblioteca municipal de Hamburgo os funcionários também são treinados, por pedagogos, para fazer esse tipo de eventos. “O perfil do bibliotecário mudou”, resume o palestrante.

Na Bücherhallen, uma das atividades que atrai bastante público é a oficina de circuitos eletrônicos integrados. Nela, as crianças podem construir periféricos para computador, fazer

testes e brincar em grupo. Outro exemplo de diversão é o jogo “Caça ao Tesouro”, que é realizado com os celulares dos usuários e aplicativos gratuitos, ou de maneira analógica, com a intervenção de um monitor. Importante destacar: nem sempre os jogos são digitais. Uma experiência realizada pelos próprios frequentadores foi, à época do centenário das sufragistas, a criação de um jogo de tabuleiro no qual as feministas, que lutavam pelo direito ao voto, fugiam da polícia.

“Oferecemos uma experiência única, que pode ser desenvolvida na biblioteca – e é tudo criado e coordenado por nós”, diz Instisnke.

A biblioteca é, acima de tudo, o ponto de encontro. Ela reúne pessoas que fazem tricô juntas. Ou blogueiros e podcasters que nunca se viram “ao vivo”, mas querem tomar café e trocar ideias. “Nos concentramos em aumentar a infraestrutura técnica, disponibilizar equipamento. Mas o mais importante é a biblioteca como local gostoso, onde todos são bem-vindos. Na sociedade, é um dos últimos locais não-comerciais”, diz o palestrante.

A gamificação é lúdica

A gamificação é uma linguagem que faz uso do design e da mecânica de jogos para enriquecer contextos diversos com o objetivo de instruir, influenciar comportamentos e incentivar a conquista de resultados práticos. Este recurso lúdico é usado na Bücherhallen para fidelizar clientes que, no site, giram em torno de 7,5 mil visitantes diários. O alvo principal, conta Instinske, são jovens e adultos com até 35 anos, mais abertos a esse tipo de ação. Feito o cadastro, o usuário ganha pontos que podem ser trocados, por exemplo, pela sacola de tecido da biblioteca ou por ingressos de algum evento cultural. Este é recurso que motiva e aumenta a frequência de público.

 

Ao compartilhar a experiência da Bücherhallen Hamburg, espera-se que ela seja inspiradora para a sua biblioteca. “Este processo é muito longo, necessário, valioso”, conclui Instisnke.

Seminário Internacional Biblioteca Viva reuniu participantes de 18 estados

A 11ª edição do Seminário Internacional Biblioteca Viva – Conhecimento, Leitura e Literatura: Novas Trilhas foi encerrado ontem, dia 7, em São Paulo. O evento reuniu 852 participantes, de 150 municípios e 18 estados brasileiros para discutir o impacto da experiência digital nas bibliotecas contemporâneas, entre outros temas.

“O Seminário é um evento da maior importância para o campo da biblioteca pública. É um momento de reflexão, pois traz experiências de fora, e também de entusiasmo para as pessoas que, ao se encontrarem, percebem que há muita gente trabalhando por esta ideia de biblioteca viva”, disse, Pierre André Ruprecht, diretor-executivo da SP Leituras, organização social que executa o evento, uma iniciativa do Governo do Estado de São Paulo, por meio da Secretaria de Cultura e Economia Criativa.

Ainda segundo Ruprecht, “este ano, o seminário foi particularmente feliz em duas missões: na reflexão sobre os desafios que as novas mídias e tecnologias estão trazendo e como a biblioteca pública responde a esses estímulos, e na leitura – que é o outro lado importantíssimo da biblioteca”.

A programação contou com convidados da Alemanha e Lituânia que compartilharam como usam a tecnologia de forma positiva nas bibliotecas de seus países, conversas com os escritores Eva Furnari, Pedro Bandeira e Maria Valéria Rezende, mesas-redondas multidisciplinares na área da comunicação e a troca de experiências sobre iniciativas desenvolvidas em bibliotecas de todo o Brasil.

 

Vivências do Japão encontram as do Pará e do interior de São Paulo

Experiências tão diversas e realizadas em lugares com características tão diferentes chamaram a atenção do painel que reuniu as apresentações da Biblioteca Infantil Brasileira Susana Ventura (Projeto Construir Artel), de Osaka no Japão,  Projeto Biblioagrorural, de Tomé-Açu no Pará, e a Nova Biblioteca Municipal de Santa Bárbara D´Oeste, no interior de São Paulo. A atividade, realizada no último dia do Seminário Internacional Biblioteca Viva, foi mediada por Marilena Nakano, da Rede Beija-flor de Pequenas Bibliotecas Vivas de Santo André (SP).

A Biblioteca Infantil Brasileira Susana Ventura nasceu do desejo de levar títulos em língua portuguesa para as famílias que vivem em Osaka. A ideia foi inspirada na Biblioteca Patrícia Almeida em Nova York, nos EUA, e que funcionava  pelo correio, beneficiando-se de  tarifas amigáveis e que cobrava mensalidade dos pais. A inauguração da biblioteca que leva o nome de Susana aconteceu em março de 2019 e, hoje, a iniciativa soma  1.500 livros para crianças de até 12 anos (atualmente, há 600 a caminho e 200 aguardando embarque). A ideia é atingir a marca de 3 mil livros de qualidade no acervo, que passa por curadoria cuidadosa já que há limitações com relação ao espaço de armazenamento do acervo. Entre os projetos futuros da biblioteca estão a construção de um canal no YouTube (OsakaLê) e a implementação dos empréstimos de títulos pelo correio (em fase de avaliação de custos).

O Projeto Biblioagrorural, conduzido pela equipe da Biblioteca Pública Municipal Wilson Marques, de Tomé-Açú, no Pará, apresentou os detalhes da realização de um ciclo de oficinas e palestras de manejo sustentável para agricultores. Além das atividades, que contribuíram para a formação e informação da população que vive do plantio (enfatizando a redução da emissão de Carbono), houve até contrapartida com a criação de uma horta na própria biblioteca, que fica ao lado da igreja matriz no município. O projeto contou com atividades na zona rural e outras na cidade, inclusive com a certificação dos participantes. Como frisaram o Secretário Municipal de Cultura e Turismo, Roberto Silva, e a bibliotecária Elanir Fernandes, a presença do projeto no seminário já foi uma importante vitória para o município e pode contribuir para a continuidade da Secretaria na estrutura da condução da política cultural da cidade.

Inaugurada em junho de 1968, a Biblioteca Pública Municipal Maria Aparecida de Almeida Nogueira está hoje localizada no Novo Terminal Urbano de Santa Bárbara D´Oeste (SP). Em 1976 foi transferida para o prédio do antigo Paço Municipal e, aos poucos, o sonho de estabelecer-se no terminal foi ganhando forma. A ideia era utilizar 12 contêineres em um arranjo circular, fazendo uso consciente dos recursos (e como resultado de uma preocupação com a sustentabilidade) na nova localização. Em 25 de janeiro de 2019, o sonho vira realidade e impressiona. Os novos desafios agora residem na busca de parceiros para estabelecer e/ou consolidar atividades como círculo literário, programação de contação de histórias, oficinas de teatro e cinema para crianças, de fotografia e criação literária, entre outras. O próximo passo é estabelecer o sistema de empréstimo de livros entre as bibliotecas Professora Maria Aparecida com as Professor Léo Sallum e Neide Crócomo.

Foto: Equipe SP Leituras.
Foto: Equipe SP Leituras.
Foto: Equipe SP Leituras.

 

 

Experiências no Amazonas, Curitiba e São Paulo inspiram

A mediação cultural e dinamização da Biblioteca Pública de Manaus, no Amazonas, o programa Curitiba Lê, no Paraná, e o Projeto Empreendedorismo da Biblioteca de São Paulo e Biblioteca Parque Villa-Lobos, na capital paulista, inspiraram a plateia do Seminário Internacional Biblioteca Viva durante o último painel do evento, conduzido por Marilena Nakano, da Rede Beija-flor de Pequenas Bibliotecas Vivas de Santo André (SP).

A apresentação do projeto de Empreendedorismo na BSP e BVL fechou a atividade, destacando que a experiência tem tudo para ser replicada em outros espaços, já que pode até valer-se de profissionais da própria comunidade atendida como um compartilhamento de saber. Fazendo referência à economia criativa, a iniciativa contou com empreendedores residentes na BVL em espaço de coworking formalizado através do Projeto Acessa Campus (informalmente, áreas da BSP e BVL são utilizadas por frequentadores nesse sentido). Nas duas bibliotecas, a programação inclui ainda oficinas e cursos de formação e informação para quem deseja iniciar ou expandir seu próprio negócio, em parceria com o Sebrae, abordando aspectos importantes para a geração de renda. Confira o vídeo com os detalhes em https://www.youtube.com/watch?v=2IJTtNLJgXM

Da região Norte veio a experiência da Biblioteca Pública do Amazonas, localizada em Manaus. A mediação cultural como proposta de dinamização do espaço, fundado em 1907 e restaurado posteriormente. A comunidade demandava mais atividades, dinamismo e proximidade com a biblioteca. Criou-se então, em 2016, a Divisão de Cultura e Extensão dentro do espaço, visando a criação de ações e eventos, o recebimento de visitas monitoradas, tratamento do acervo audiovisual, além de atividades de extensão. Naquele ano, houve até com boa repercussão a estreia da Feira de Troca de Livros e Gibis. Outras iniciativas seguiram esse caminho no decorrer do tempo como o Carnaval das Letras, Trocando Ideias, Conversas Cardiais, Exposição de Quadrinhos e Mostra de Cinema Brasileiro, além de apresentações musicais, teatrais e lançamento de livros de autores locais.

Por sua vez, o programa Curitiba Lê, da Fundação Cultural da cidade paranaense, compartilhou detalhes sobre as várias atividades realizadas por lá, que visavam, sobretudo, implementar uma política pública municipal para as áreas da Literatura, Livro e Leitura; organizar um serviço público prestado à comunidade, garantindo direito de acesso à Arte e Cultura (foram criados novos espaços e outros reestruturados com nova concepção de espaço físico e nova política de acervo); implantar projetos e ações de incentivo à leitura e criação literária; formação de leitores autônomos e críticos, de mediadores e também na área de criação. Entre os resultados, constam, hoje, rodas de leitura, varal literário, Roda Cine, Pausa para Poesia, Leitura na Praça, Clubes de Leitura, Pedal Social e Feira de Histórias.

Foto: Equipe SP Leituras.

Pedro Bandeira emociona a platéia com suas histórias e seu carisma

“Aprende-se a ler, lendo. É como andar de bicicleta e nadar. Precisa praticar”, disse Pedro Bandeira, um dos mais conhecidos escritores da literatura infantojuvenil brasileira, ao público que o assistiu na tarde do dia 7, durante o 11º Seminário Internacional Biblioteca Viva, na conversa mediada pela jornalista Chis Maksud.

Inspirador e carismático, o autor santista agradeceu a platéia composta, em boa parte, por professores e educadores cujo papel em sua opinião é de fazer a ligação entre o livro e as crianças e jovens. “Sem vocês não há futuro no Brasil”. Ele recorreu a exemplos como o dos judeus e os luteranos que usaram o conhecimento, a palavra e os livros para se desenvolver ao longo da História.

Bandeira também destacou os contos de fadas e a histórias maravilhosas como fundamentais para a formação das pessoas. João e Maria lida com o medo universal das crianças do abandono pelos pais. “A história é uma representação da realidade que faz a criança sentir o problema sem ter que vivê-lo na realidade.  Este processo faz com que as pessoas amadureçam”, diz o escritor, que trabalhou como jornalista e estudou pedagogia e psicologia para escrever com propriedade e com as nuances exigidas pelas diferentes faixas etárias.

A tecnologia não ameaça os livros, na opinião de Bandeira. E por isso, ele segue seu caminho de escritor, que acredita na força da palavra e das histórias. Seu último lançamento é “Narizinho, a menina mais querida do Brasil”, uma adaptação de Monteiro Lobato, de quem foi fã na infância e uma paixão que segue até hoje.

 

 

Economia criativa é motor de desenvolvimento no Brasil

“A economia da cultura é vital para o desenvolvimento no século XXI”, afirmou o advogado Cláudio Lins de Vasconcelos, que falou hoje, dia 7, na Trilha da Inovação, durante o Seminário Internacional Biblioteca Viva, que acontece em São Paulo.

A palestra “A Economia da Cultura como Eixo de Desenvolvimento Estratégico do Brasil” foi mediada por Christiano Lima Braga, coordenador da Unidade de Difusão, Bibliotecas e Leitura (UDBL), da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Estado.

Segundo Lins de Vasconcelos, o conteúdo cultural, produto da criatividade humana, está espalhado por tudo: cinema, teatro, dança, música, design, mercado editorial e até nas bibliotecas. Todas essas atividades reunidas movimentam, segundo pesquisa da Ernst & Young, de 2015, US$ 2,17 trilhões ano ano, em todo o mundo.

Além de ser uma alternativa de desenvolvimento econômico para o Brasil, com oferta de produtos que ultrapassem as já reconhecidas commodities, sementes da Embrapa e jatos da Embraer,  é uma oportunidade de realce para o país. “Entre as vantagens competitivas, os brasileiros se destacam por sua vocação de produzir cultura através da música, do cinema, das novelas, da publicidade e de uma infinidade de atividades que dependem da criatividade expressa em diversas linguagens.

“Nós somos reconhecidos lá fora, o que prova a potência da cultura. Mas há a necessidade de interação do Brasil com o mundo e do estado cuidar disso de maneira eficaz”, pontua  Lima Braga.