“Praticar o humor é um exercício de liberdade”, disse a cartunista Laerte no Seminário Biblioteca Viva.

 

A chargista e cartunista Laerte foi convidada para uma palestra no Seminário Biblioteca Viva, nesta quarta-feira, 25 de outubro. E o bate-papo literário foi hilário. Ela não só abordou a transgeneridade e a sua militância em questões de gênero. Não só falou de seu processo de trabalho e criação ou contou sobre a história dos quadrinhos no Brasil – um passado e um presente em que figura como nome de inegável importância. Não só projetou sua obra para um futuro ainda desconhecido e em construção. Não só contou piadas – uma a cada dois minutos. Ela refletiu sobre as mudanças da sociedade e a busca por igualdade em todos os sentidos. Ela mesma é um exemplo que inspira mudanças e novas atitudes. E o exemplo é sempre algo transformador. “Praticar o humor é um exercício de liberdade”, disse, em um das incontáveis frases dignas de registro. Confira outras abaixo —>

 

Eu comecei na revista Balão, com o Luiz Gê. Era um fanzine e aquilo foi muito importante. Não era realmente desenho, era uma experiência com desenhos. O Salão de Humor de Piracicaba marca uma nova possibilidade criativa. A censura da época era feita de forma massiva. Nós começamos a planejar a resistência. Em 1974, ganhei a primeira edição do Salão e entrei para o Partidão. E passei a combinar o ativismo com a profissão. Comecei com a criação dos personagens, que eram ideias que derivam de outras ideias humanas. Algumas eram plágio. Passei a publicar nos jornais, isso passou a ser o meu trabalho.

 

Deixar as personagens de lado me trouxe perspectivas desafiadoras. O quadrinho propicia muito isso. Qual é o seu personagem?, sempre me perguntam, aqueles que não me conhecem. Pois os personagens têm uma série de atributos e uma carga emocional, sempre agem da mesma maneira, têm um histórico. Às vezes, você só propõe uma situação e o personagem faz a tira sozinho. Hoje é diferente. Gosto muito de fazer desenhos de nú. Montei um atelier com meu filho, Rafael Coutinho. E a coisa deixou de ser mecânica. Voltei a descobrir que eu desenho.

 

Hoje não existe censura. Existe a tentativa de estabelecer o politicamente correto como uma forma de censura. Isso é uma mentira. O que existe é uma perseguição de peças, exposições e daqui a pouco isso vai chegar nos livros e na literatura. E pode afetar a produção, ter artistas que não vão fazer alguma coisa por conta de um berreiro. Em 1964, tinha isso, uma censura prévia. Não era só o censor, que tinha o seu olhar. A gente também tinha um crítica. Isso faz com que a gente deixe de falar, abordar e sentir. A gente não pode sentir. É uma forma de agressão.

 

Desde o fim da ditadura, a manifestação do espaço democrático é um patrimônio. É fruto de uma construção e de uma militância. A sociedade hoje está mais empoderada. Antes quando você chamava alguém de bicha ou de preto, as pessoas não se defendiam, se sentiam humilhadas e inseguras. Hoje não. Esse movimento temos que manter e ampliar.

 

Hoje temos novos conceitos de liberdade, de atitude, de moral. As mudanças das pessoas no campo da afetividade e da sexualidade são maiores do que as da política. Mudou bastante. E assumir a homossexualidade me trouxe outro olhar. Tive problemas com a sexualidade por 36 anos, não conseguia admitir que tinha desejo por homens. Tinha algo errado. Três casamentos com mulheres foram para o vinagre. Isso me deixava num estado de ansiedade. Demorei para admitir que era viada.

 

Quando me propuseram fazer o documentário [Laerte-se, dirigido por Eliane Brum e Lygia Barbosa] eu pensei muito. Não gosto de ser objeto de atenção. Mas estava pra fazer um implante de seio e comentaram que eu seria o fio condutor de uma narrativa sobre transgeneridade. Aí mudei de ideia. E foram quatro anos de filmagem. E no fim, eu não sabia mais quem eu era. Quando eu vi a primeira montagem, fiquei muito emocionada, tocada. Uma vida não é uma história, ela tem muitas histórias. E eu acho que esse documentário tem muito do tempo que a gente vive.

 

A transgeneridade mudou a minha produção e obra porque vejo o humor de maneira diferente. Agora é mais difícil e desafiante. Eu acho que estou fazendo novas cagadas. Estou errando para o outro lado. E isso é muito bom. Reluto em aceitar que o que faço é arte. De alguma forma tem a ver com letras e literatura. É distinto delas, pois também tem uma narrativa gráfica. O que faço é muito específico. Mas me dá um prazer muito grande.

 

Estou fazendo uma obra que não é autobiográfica, mas de cunho biográfico. É um cara que vive de 1960 até agora. Estou em 1967 e já tem 40 páginas. É sobre sexo e política, são 40 anos de narrativa. Nunca fiz algo igual, tão grande. Estou vivendo todas essas histórias, juntando fatos, memórias e lembranças. Visitar o que fui para compreender o que fui e o que sou hoje.

Mesa-redonda mostra como potencializar bibliotecas populares, comunitárias e públicas em prol da leitura

O Seminário Biblioteca Viva promoveu na quarta-feira, 25 de outubro, uma mesa-redonda que discutiu como unir e potencializar bibliotecas de diferentes tipologias como as populares, comunitárias e públicas. A conversa foi com o argentino Javier Mariano Areco e a educadora Isabel Santos Mayer e gerou um rico debate.

A primeira fala foi de Bel Santos, que explicou um pouco da atuação do LiteraSampa, entidade que congrega 11 bibliotecas localizadas na capital. A ação começou quando sete organizações sociais de São Paulo, Mauá e Guarulhos se juntaram com o objetivo de promover o acesso a leitura e a literatura. O projeto cresceu, incorporou bibliotecas escolares, públicas e comunitárias, tecendo uma rede que se expandiu para outros pontos da cidade. O projeto atende crianças, jovens, adultos e idosos em diversas áreas.

A especialista falou que um dos maiores desafios hoje em dia é a criação de leitores sustentáveis. Explica que as crianças gostam de ler, que os adolescentes têm este hábito incentivado na escola, mas na vida adulta esse prazer é perdido, de acordo com pesquisas recentes como a Retratos da Leitura no Brasil. “As pessoas têm que compartilhar a leitura, pertencer a uma família literária”.

Envolvida com o setor desde os anos 90, a líder participou ativamente da elaboração do Plano Municipal do Livro, da Leitura, da Literatura e da Biblioteca de São Paulo (PMLLLB/SP) em grupos de trabalho, plenárias e debates. Afirma que se trata de um importante instrumento para a biblioteca comunitária ser tipificada como de acesso público. E fez críticas ao decreto que determina que a gestão municipal deva escolher os integrantes da sociedade que vão compor o conselho que vai acompanhar a sua implementação.

Afirma que os planos municipais de leitura são um caminho para ir além da disputa de editais entre os mesmo atores e uma alternativa para formar leitores sustentáveis, guardiões da memória que ocupam os territórios que habitam. “Como coexistir e mensurar o impacto?”, indaga. “O cenário atual é desencanto, de programações reduzidas, de orçamentos congelados. Temos que multiplicar as rodas de leitura e trocar raízes com a comunidade para formar leitores por toda a vida. Isolados a morte nos espera, a resistência tem que ser coletiva. E sem política pública não teremos um país de leitores”, disse.

Javier corrobora que o modelo ideal para a ampliação de leitores é aumentar a integrar a comunidade e fomentar a independência do governo. O bibliotecário argentino aprofundou alguns dos projetos realizados pela Comissão Nacional de Bibliotecas Populares (Conabip), a organização que atua em rede e que congrega 2 mil bibliotecas populares.

Falou mais atentamente da formação de acervo e do desenvolvimento de coleções. A entidade promove a compra centralizada e um trabalho de logística para distribuir os títulos em todo o país. E faz a aquisição colaborativa e descentralizada com o projeto Libro %. A comissão paga a viagem de 200 bibliotecários para Buenos Aires e dá uma verba para a aquisição de títulos na Feira Internacional do Livro, o maior evento editorial do país. Por meio de parcerias com editoras, os descontos chegam a 50% em cerca de 200 obras.

No total, 900 bibliotecas participam do programa. “Quando se trabalha em conjunto, temos uma maior capacidade de compras. É necessário falar com o associado e dar liberdade para ele. Cada um compra da sua maneira, de acordo com o seu interesse. Eles têm fome de participar do Libro %“, relatou.

Além disso, a instituição publica documentos técnicos com boas práticas para assessorar e capacitar as bibliotecas populares, que por vezes, carecem de um profissional especializado. Um dos temas é o descarte e a reciclagem de livros, que pode ser uma fonte de recursos para estes centros culturais.

Ainda em acervo, Javier relata que algumas unidades do interior contam com uma biblioteca de sementes, o que é uma interessante forma de atração de novos usuários e de manter o equipamento cultural em evidência na imprensa. O argentino fala que essa experiência acontece em várias partes do mundo e que mais do que replicada, foi adaptada para a realidade local.

Cita o exemplo de Necochea, cidade litorânea de 65 mil habitantes localizada na província de Buenos Aires. A biblioteca local implementou a novidade e conseguiu um outro uso e vigor para o espaço. Os jovens da periferia passaram a pegar as sementes e criaram hortas orgânicas.

A Conabip realiza ainda a assessoria para a formalização das bibliotecas populares. Na Argentina, como no Brasil, existe a burocracia para conseguir certidões e documentos e se criar uma pessoa jurídica. Este instrumento é essencial para conseguir verbas da entidade, que são repassadas pelo governo federal. Além disso, o processo permite ter acesso aos bancos e pressupõe uma prestação de contas.

E essa prestação de contas não é somente no âmbito financeiro. A entidade recebe das bibliotecas populares “un montón de información“, que serve para a análise e desenho de políticas públicas. Uma das ferramentas é um sistema informatizado georreferenciado, que permite plotar mapas com dados das unidades e dos municípios que as sediam.

Este trabalho é feito em paralelo com o Ministério da Cultura argentino, que também conta com bancos de dados estatísticos. A Conabip já chegou a realizar um pequeno censo, ainda que experimental, na cidade de Corrientes. Lá, estudantes de biblioteconomia visitaram os espaços culturais e fizeram a captura das informações in loco.

No Brasil, Bel comentou que o Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas (SNBP) tenta há anos realizar um processo sistemático de mapeamento, mas que são necessárias verbas específicas. Outra questão é que no país ainda existe carência de profissionais de bibliotecas. Procurando preencher este vácuo, o LiteraSampa fez uma parceria com uma universidade paulista e desenvolveu um trabalho de formação e capacitação de colaboradores e voluntários.

A mesa-redonda mostrou que existem muitas similaridades do que diferenças entre os países vizinhos. E que este intercâmbio de experiências leva a um aprendizado para criar alternativas e tecer um caminho comum. A programação do último dia do Seminário Biblioteca Viva prosseguiu falando de questões de gênero, território, mediação de leitura e o papel da biblioteca neste contexto. Confira mais posts no blog oficial do evento —> https://bibliotecaviva.org.br/blog

Evento de bibliotecas mostra a importância de contar as histórias das pessoas

 

A primeira palestra do Seminário Biblioteca Viva na quarta-feira, 25 de outubro, apontou as semelhanças entre o trabalho das bibliotecas e dos museus, expondo uma importante experiência sobre herança cultural. O tema é trabalhar coleções e acervos que fomentam a memória e contam as histórias das pessoas. A fala foi com Karen Worcman, que há 25 anos mantém e dirige o Museu da Pessoa.

A mediação ficou a cargo do diretor da SP Leituras, Pierre André Ruprecht, que destacou essa equivalência, apontando para o manifesto da International Federation of Library Associations and Institutions (IFLA). O documento traz 12 linhas mestras que devem objetivo final de bibliotecas em todo mundo.

Além dos números, sempre superlativos, a historiadora carioca surpreende pelo olhar. O olhar que vê no indivíduo uma fonte de saber e conhecimento. O olhar que resgata a memória coletiva e a coloca em primeiro plano. O olhar que usa livros, fotos e vídeos como ferramentas para manter vivas as narrativas. Seria o Museu da Pessoa um museu? Ou seria uma biblioteca humana? Quando se fala de biblioteca humana, vale recordar a fala de Rámon Salaberria, da Biblioteca Vasconcelos, no México. Ele detalhou esta bem-sucedida experiência no Seminário Biblioteca Viva 2015.

A gestora cultural também explicou as diversas fases do Museu da Pessoa, que está entre os 10 mais visitados do Brasil. Falou que além de catalogar, deve-se ouvir, disseminar e devolver os saberes. E não só: produzir estes saberes. “Devemos incentivar a produzir novas imagens do território. É contar a histórias das pessoas e da cidade. O ser humano deveria ser considerado o maior patrimônio da sociedade. A memória de vidas é algo intangível”.

O acervo do Museu da Pessoa conta com 17 mil depoimentos, que totalizam 25 mil horas de vídeo e 60 mil fotos e documentos. Uma produção que está acessível na internet por meio de uma plataforma digital. Além deste trabalho pioneiro na web, a instituição também criou em 2009 um método de replicação do trabalho.

Esta tecnologia social da memória ensina técnicas de entrevista e como colher os depoimentos para destacar a importância da história falada. A ferramenta foi usada por 1.300 organizações e escolas, 4.500 professores e cerca de 45 mil estudantes, profissionais e lideranças comunitárias. “O mais bacana é ver o interesse de quem está fazendo. Estamos sonhando com o macro e fazendo no micro. As pequenas coisas é que nos movem”, finalizou.

Confira como foram os painéis do último dia do Seminário Biblioteca Viva

 

Os painéis do Seminário Biblioteca Viva, apresentados aos fins de cada sessão, são uma das atrações mais esperadas pelos participantes. Nesta quarta-feira, 25 de outubro, as experiências que deram certo foram das mais variadas e expuseram ideias que podem e devem ser replicadas ou adaptadas para outras realidades.

O primeiro case foi o Projeto Anonimato, de Mogi Mirim (SP), que incentivou alunos a relatar em texto e vídeo a história de servidores públicos de uma escola da cidade. O objetivo não era somente dinamizar a sala de leitura do espaço, mas também promover a produção de conteúdo literário e o sentimento de pertencimento tanto dos alunos que aderiram a ideia quanto dos funcionários retratos e empoderados pelo projeto.

Uma história muito emocionante veio de Marília (SP), cidade que fez um belo trabalho de advocacy. Lá se envolveu diversos interlocutores para a criação de um novo espaço para a biblioteca municipal. A equipe falou com a comunidade, a prefeitura, a Câmara de Vereadores, a sociedade civil e a imprensa. Inicialmente foi pensada uma reforma, mas ao longo do processo decidiu-se mudar o espaço para uma livraria que estava fechada. Os funcionários fizeram até um ato em defesa do equipamento no aniversário da cidade. A mudança não foi apenas de prédio, mas de mentalidade: fazia 11 anos que a biblioteca não comprava um livro.

A cidade de São Carlos (SP) compartilhou a experiência de um cardápio literário. Eles montaram um ‘restaurante’ diferente, que oferece literatura ao invés da comida. Entre os ‘pratos’ do menu estão o folclore, o cordel, adivinhas e trava-línguas. O resultado é um incentivo para que alunos e familiares participem da atividade e se envolvam com a escola, por meio de leituras individuais e coletivas.

A parte da tarde trouxe outras excelentes histórias. A capital paulista mostrou uma oficina de abayomi, uma boneca negra criada na época da escravidão. As mulheres negras confeccionavam essas belezas com pedaços de suas saias, único pano encontrado nos navios negreiros. A equipe do Instituto de Educação José de Paiva Netto mostrou como é são feitas as bonecas com retalhos de panos e o envolvimento dos participantes. A ideia é celebrar a cultura africana e mostrar as nossa origens.

A cidade de Arujá (SP) lançou um novo olhar sobre bibliotecas. Dois adolescentes voluntários criaram cursos na área de informática. Eles ensinam a usar o processador de texto Word, o software de animação Flash e o programa de desenvolvimento Scratch. Também montaram workshops de matemática, física, química, por exemplo. Mais recentemente, criaram um curso de teatro. Uma bela ação de inclusão social voltada para públicos de todas as idades.

Fechando os painéis, a Biblioteca Parque Villa-Lobos (SP) falou do Lê no Ninho, programa que faz a mediação de leitura para crianças de 6 meses a 4 anos. A equipe mostrou um pouco do histórico do projeto, contou sua atuação na prática e como foi a sua reformulação em 2016. Destacou também o uso de tablets, que podem ser uma ferramenta tecnológica de integração entre pais e filhos. Detalharam também as várias etapas do programa como o acolhimento, a contação de histórias, o uso de música e a interação com livros.

O Seminário Biblioteca Viva teve muito conteúdo bacana. Acesse mais no blog do evento —>
https://bibliotecaviva.org.br/blog

Conheça a experiência das bibliotecas populares na Argentina

O bibliotecário Javier Mariano Areco apresentou na terça-feira, 24 de outubro, no Seminário Biblioteca Viva os inúmeros projetos e serviços da Comissão Nacional de Bibliotecas Populares (Conabip). A organização argentina é uma referência para o Brasil trabalhar em rede, promover a integração com a comunidade e a articulação entre o estado e a sociedade. O modelo começou no século 19 e hoje congrega 2 mil bibliotecas populares no território nacional. “Somos heterogêneos, plurais e abertos. Todos são tratados iguais, mas agregamos pessoas diferentes. As bibliotecas populares são lugares de encontro e uma ferramenta para a construção de liberdade”, comentou.

Entre as características desta bibliotecas estão: ter um grupo de voluntários, normalmente líderes comunitários, ter um espaço fixo próprio, fazer uma prestação de contas – já que são usados recursos público, contar com horário fixo de atendimento, ter uma coleção que atenda as demandas do público e destacar a condição de ser popular – ou seja, fazer o advocacy do sistema. As bibliotecas populares atuam em zonas e bairros carentes de projetos culturais.

O especialista argentino citou diversos projetos da entidade como o Libro %, que destina recursos para os associados viajarem a Buenos Aires durante a feira do livro. Além de pagar a viagem, o Conabip dá uma verba para a compra dos títulos. Durante este evento, o maior do país, é possível conseguir descontos de até 50% com editoras. Ao final da sua fala, convidou os brasileiros para conhecer a ideia. Outro investimento em acervo são as compras regulares, distribuídas entre as bibliotecas. A curadoria é feita por especialistas e ouvindo as bibliotecas da rede.

A Conabip promove um projeto de extensão chamado Bilbiomóveles. A ideia é usar carros e vans que percorrem o país com uma minibiblioteca, visando atrair novos usuários. O projeto é tão forte que algumas unidades contam com um veículo próprio.

A rede argentina edita uma revista impressa e digital chamada Bepé, que publica entrevistas, reportagens e faz a divulgação de novos autores. Fomenta um selo editorial próprio, investe em fóruns, redes sociais, têm programas de rádio e um canal audiovisual na web, além de realizar palestras virtuais e presenciais com escritores argentinos.

Capacita os profissionais em competência informacional, para eles fornecerem informações sobre a cidade e seus pontos turísticos e integrar estas iniciativas com o acervo local. Investe no Observatório de Bibliotecas, projeto que cria a biografia de algumas unidades, registrando a história dos equipamentos culturais.

Criou ainda um sistema de gestão de bibliotecas baseado em código aberto. O software centraliza a buscas nos catálogos das 900 bibliotecas populares que já adotaram a ferramenta. Além de aumentar a cooperação entre as unidades, outra vantagem é ter a base de dados em um servidor na nuvem. E este é apenas um dos serviços de assistência em biblioteconomia.

A Conabip tem ainda uma área de relações internacionais, que promove de maneira sustentada a cooperação com alguns países como a Colômbia, Peru, México, França e Alemanha. A ideia não é somente promover intercâmbios para a troca de experiências, mas também ajudar outras nações a implementar modelos e projetos já testados no país-sede.

Na mesa-redonda de quarta-feira, 25 de outubro, o bibliotecário vai aprofundar alguns destes tópicos. O especialista divide a fala com Isabel Mayer, do LiteraSampa, uma associação brasileira que também trabalha em rede. É uma ótima oportunidade para conhecer mais as ideias que visam ampliar a atuação no território, tema central do Seminário Biblioteca Viva.

A dica é acessar o site oficial para aprender mais com essa rede argentina —>

http://www.conabip.gob.ar

Evento em São Paulo discute a tecnologia a serviço das bibliotecas

Uma das tendências para o setor é o uso das tecnologias de informação e comunicação nas bibliotecas e centros culturais. E isso esteve presente em vários momentos da décima edição do Seminário Biblioteca Viva. A francesa Mélanie Archambaud falou da adoção de espaços makers e fablabs; a alemã Gabriele Ceseroglu ressaltou a importância do acesso ao meio digital, o especialista Javier Mariano Areco contou as experiências argentinas com a democratização de softwares de gestão e o investimento em mídias digitais.

Na manhã desta terça-feira, 24 de outubro, o tema dominou o cenário. Esteve presente na palestra virtual com a croata Mirela Roncevic, que gravou um vídeo para explicar um pouco mais do projeto Free to Read (Livre para ler). A expert radicada nos Estados Unidos contou detalhes do processo de criar um aplicativo que possibilitou acesso de conteúdos literários na Croácia.

“Este projeto passou a ser o centro das minhas atividades. E com isso, conseguimos mobilizar um país inteiro”, comentou no vídeo. O aplicativo se chama Croacia Reads e permite baixar livros na língua nativa e em outros idiomas. Ela mesmo disse que se surpreendeu com a procura de e-books em inglês, por exemplo. O piloto foi gestado em quatro semanas: o primeiro passo foi importar a tecnologia e o modelo de negócios de Israel. A plataforma é um hub que centraliza o acesso e teve uma excelente resposta do público: cerca de 30 mil downloads em pouco mais de um mês.

E o exemplo implementado por Mirela não é isolado. No Brasil, existem dezenas de projetos que usam tecnologia para promover atividades em bibliotecas. Algumas destas experiências foram tema dos painéis da manhã.

A primeira apresentação foi de Itanhaém (SP), que mostrou uma forma artesanal para produção de livros, cuja ideia é democratizar o acesso. As obras são feitas de materiais reciclados e com mão de obra voluntária, o custo gira em torno de R$ 2. O projeto foi viabilizado por meio da parceria da biblioteca com a sociedade, ‘colocando no papel’ cinco obras de autores locais e impactando na vida da comunidade. Esta produção alternativa usa tecnologias como martelo, serra, papelão e até uma havaiana.

Outro case interessante veio de Lençóis Paulista (SP), cidade que tem nas letras uma identidade: o acervo do município é de 150 mil livros para cerca de 65 mil habitantes. Lá se expandiu umas principais funções de uma biblioteca, que é cuidar da memória local, disponibilizando as informações na internet. A equipe buscou recursos para modernizar a área de restauro e digitalização, conseguindo verba para comprar um scanner moderno. Com isso, novas portas se abriram.

A biblioteca restaurou cerca de 500 obras raras, uma delas de 1585. Recentemente, um dos jornais mais antigos do estado de São Paulo, O Eco, doou 80 anos de acervo. O trabalho de digitalização do material deve ser concluído em fevereiro, a tempo do aniversário do periódico. Outra solicitação é do cemitério, que solicitou a digitalização dos livros de registro. Estes documentos são muito solicitados para quem deseja conseguir uma cidadania estrangeira.

A capital paranaense trouxe outro exemplo de como a integração de mídias digitais e impressas pode estar a serviço da sociedade. A Biblioteca Pública do Paraná (BPP) investe no Jornal Cândido há seis anos. A publicação mensal está na edição número 76 e divulga as atividades do espaço e da literatura brasileira.

A tiragem de 10 mil exemplares é distribuída nacionalmente e existe também uma versão digital, com o conteúdo integral: são reportagens, ensaios e até textos literários. A biblioteca completa 160 anos e é o maior centro de difusão cultural do Estado. Tem uma visitação de 3 mil pessoas e 1500 empréstimos por dia. Ao todo, o acervo é de 800 mil títulos.

Ajudar e integrar idosos com a tecnologia é a ideia da Biblioteca de São Paulo (BSP), que promove a Oficina de Smartphones e Redes Sociais voltadas para o público com mais de 60 anos. A atividade começou em 2015 e ensina dicas para inserir um contato, conversar no WhatsApp ou encontrar um amigo no Facebook. Até agosto foram realizadas 37 edições com 376 participantes e a procura continua em alta. A ideia veio da equipe de atendimento: os tutores do curso de informática perceberam que o público também necessitava de auxílio para usar os celulares inteligentes.

Por fim, último painel mostrou o uso do teatro para entreter o público em Garça (SP). Lá se usa as artes cênicas em várias linguagens e meios tecnológicos como vídeo e música, num trabalho de expressão que exercita o lado lúdico e o gosto pela leitura. O mapeamento durou um mês e o projeto foi uma das maneiras que o equipamento cultural pensou em atrair os ‘não usuários’. A biblioteca realiza oficinas de teatro e peças experimentais em itinerâncias nas áreas carentes. A ação é semanal, tem duração de duas horas e foca em crianças e adolescentes.

Agenda ONU 2030 em discussão no Seminário Biblioteca Viva

A primeira atividade do Seminário Biblioteca Viva, realizado nesta terça-feira, 24 de outubro, foi com a presidente da Federação Brasileira Associações Bibliotecários (Febab), Adriana Ferrari sobre a agenda da International Federation of Library Associations and Institutions (IFLA) e da Organização das Nações Unidas (ONU). As instituições buscam em conjunto soluções para um mundo melhor, mais justo e com novos paradigmas de desenvolvimento. Trata-se de um trabalho de advocacy, tema caro ao SisEB e que o seminário sempre traz na pauta.

A especialista ressaltou a importância deste setor: ao redor do globo são cerca de 1 milhão de bibliotecas, sendo que 320 mil delas são públicas. “Somos uma rede muito forte. A nossa missão é promover o acesso público à informação para que as pessoas possam tomar decisões melhores”.

Ressaltou que na América Latina – assim como boa parte do mundo – existem diversos tipos de problemas: escassa produtividade, infraestrutura deficiente, necessidade de investir mais em educação e saúde, além de diminuir as desigualdades e fomentar a discussão de gênero. São estes problemas que a Agenda ONU 2030 tenta mitigar, tendo como premissas as pessoas, o planeta e a prosperidade.

Os 193 países que integram a ONU são signatárias do documento, que começou a ser discutido em 2010 com a plataforma Objetivos do Milênio, que tinha vistas para ser implementado até 2015. A partir da Rio + 20 se buscou um horizonte maior de tempo, debate que continuou em diversas esferas até ser assinado no ano passado. Adriana conta que a IFLA teve um papel imprescindível neste processo, promovendo reuniões e eventos com associados e a sociedade.

A Febab traduziu o documento da ONU e criou uma cartilha que o explica, além de trazer cases de sucesso. A ideia é gerar conteúdo com exemplos dos estados brasileiros para fomentar a troca de experiências.

O arquivo está disponível para download no site oficial neste link.

Veja o que rolou nos painéis do fim da tarde

Depois de diversas experiências sobre mediação de leitura, seja com garotos das periferias brasileiras ou com imigrantes na Alemanha, o Seminário Biblioteca Viva trouxe três cases sobre o tema que podem ser replicados por bibliotecas de diversos portes.

O primeiro painel foi sobre a conexão com os idosos, mostrando um projeto de Sertãozinho, em São Paulo, que levou música e poesia para animar este público. O equipamento fez uma parceria com um centro de idosos, realizando visitas semanais. Lá eles promovem leituras de fábulas, trívias, quadras ou escutam as histórias de vida. Ao fim da atividade, o bibliotecário discoteca as músicas solicitadas, na maior parte das vezes em LP, o que é outro fator de empatia.

Na sequência, o evento mostrou um projeto sobre deficiência visual. A ideia de Jacareí, em São Paulo, é um treinamento para educadores com teoria e aplicação de dinâmicas. O objetivo não é só falar de causas das doenças, formas de prevenção e tecnologia assistiva, mas sim ressaltar a importância do lúdico. Para isso, é necessário mostrar vivências e se colocar no lugar do outro. Além disso, é ensinado o Soroban, técnica japonesa de cálculo matemático e o braile.

Por fim, o último painel mostrou como a contação de histórias pode ser um ótimo caminho para trazer público. Feita por oito atores não profissionais da cidade de Guararema, em São Paulo, a ideia é divertir e entreter crianças e familiares com adaptações modernas de contos de fadas. Já se usou até paródias como da música Bang, de Anitta. Esse processo levou um maior engajamento dos colaboradores e também do público: somente a primeira apresentação levou 130 pessoas na biblioteca. Hoje a companhia teatral faz até vídeos de divulgação para as redes sociais e a imprensa local.

Alemanha discute a leitura como forma de integrar os imigrantes

Após a palestra da Tia Bia e Marcos Lopes, a bibliotecária alemã Gabriele Ceseroglu falou das experiências da cidade de Colônia, na Alemanha. Uma realidade bem distinta da brasileira, de natureza diferente, mas também aplicando conceitos de afetividade, empatia e integração. Lá se busca a valorização das múltiplas culturas, línguas, nacionalidades e identidades.

Com uma população de 1 milhão de habitantes, Colônia tem 30% da população de outras nacionalidades, de cerca de 180 países. Abrigar estes imigrantes se torna um grande desafio, especialmente se a biblioteca não tivesse se adaptado para essa nova realidade. O município recebeu também 12 mil refugiados nos últimos anos.

A especialista alemã contou um pouco dos programas e projetos desenvolvidos para esta população: desde o acervo em vários idiomas, até o debate literário em outras línguas, passando por aulas de alemão para estrangeiros. Os imigrantes recém-chegados precisam fazer um processo de integração coordenado pelo governo, e uma dessas atividades inclui a visita a biblioteca. A preocupação é tão grande que os funcionários ajudam a escrever uma carta ou usar o computador.

“O nosso espaço está aberto a todos. Muitas vezes os imigrantes não veem valor na biblioteca pois não sabem ler em alemão. Mas fazemos questão de dizer que são bem-vindos”, disse Gabriele. A especialista conta que os programas contemplam idiomas como o grego, albanês, árabe, russo, espanhol, búlgaro e turco. “Queremos mostrar que a biblioteca está aberta, acessível e de maneira gratuita. E não temos ideologia, somos absolutamente neutros”.

Uma das receitas para o êxito dos projetos é a interpretação de que todas as culturas têm o mesmo valor, disseminando o respeito e tolerância pelo outro. Ouvir os participantes também é muito importante. E não ter medo de inovar. “Tem um ditado do país que fala: enquanto os outros estão planejando, nós já cometemos o nosso primeiro erro”, finalizou a bibliotecária.

Palestra sobre novos territórios da leitura com Tia Bia e Marcos Lopes

Um do momentos mais emocionantes da segunda-feira, 23 de outubro, no Seminário Biblioteca Viva foi a conversa dos educadores Ana Beatriz Fernandes Nogueira, da Casa do Zezinho, e Marcos Lopes, do Instituto Projeto Sonhar. Eles falaram dos seus projetos sociais e ganharam a atenção do público ao retratar a dura realidade das periferias brasileiras, com foco no Capão Redondo, região da capital paulista onde atuam.

Ana Beatriz, ou Tia Bia, comentou sobre como é difícil chegar no território, entender as relações e as complexidades envolvidas. “A gente olha para aquela crianças e jovem e tenta não cometer o juízo de valor. Não quero saber o que levou aquele garoto ao crime. Tratamos isso com muito cuidado, temos que valorizar o lado afetivo e o respeito”.

Os programas pela Casa do Zezinho funcionam no contraturno da escola e incluem esporte como Jiu-jitsu e Kung Fu, e trabalhos artísticos em várias linguagens como teatro, dança, capoeira, além de atividades com tecnologia. “A gente reconhece a importância de entreter e despertar nos jovens o desejo por aprender. Quanto a leitura, eles não têm motivo para acreditar e confiar, se sentem excluídos, envergonhado de entrar numa biblioteca. Fazemos mundos e fundo para criar essa empatia”.

Já Marcos Lopes contou um pouco da sua vida e história:  ele chegou a pertencer ao tráfico de drogas, mas conseguiu sair com ajuda da literatura. O livro que despertou esse desejo foi Capão pecado, do escritor Ferréz, que leu numa biblioteca da comunidade. Hoje, já está formado, virou professor, escritor e coordena há dez anos um projeto para ajudar crianças e famílias, retribuindo o auxílio que recebeu no passado. “Não é possível fazer nada sozinho. Se a literatura salvou a minha vida, tenho que fazer o mesmo pelas outras pessoas. Ao todo, já cuidei de 600 crianças”, disse.