Mesa-redonda mostra como potencializar bibliotecas populares, comunitárias e públicas em prol da leitura

O Seminário Biblioteca Viva promoveu na quarta-feira, 25 de outubro, uma mesa-redonda que discutiu como unir e potencializar bibliotecas de diferentes tipologias como as populares, comunitárias e públicas. A conversa foi com o argentino Javier Mariano Areco e a educadora Isabel Santos Mayer e gerou um rico debate.

A primeira fala foi de Bel Santos, que explicou um pouco da atuação do LiteraSampa, entidade que congrega 11 bibliotecas localizadas na capital. A ação começou quando sete organizações sociais de São Paulo, Mauá e Guarulhos se juntaram com o objetivo de promover o acesso a leitura e a literatura. O projeto cresceu, incorporou bibliotecas escolares, públicas e comunitárias, tecendo uma rede que se expandiu para outros pontos da cidade. O projeto atende crianças, jovens, adultos e idosos em diversas áreas.

A especialista falou que um dos maiores desafios hoje em dia é a criação de leitores sustentáveis. Explica que as crianças gostam de ler, que os adolescentes têm este hábito incentivado na escola, mas na vida adulta esse prazer é perdido, de acordo com pesquisas recentes como a Retratos da Leitura no Brasil. “As pessoas têm que compartilhar a leitura, pertencer a uma família literária”.

Envolvida com o setor desde os anos 90, a líder participou ativamente da elaboração do Plano Municipal do Livro, da Leitura, da Literatura e da Biblioteca de São Paulo (PMLLLB/SP) em grupos de trabalho, plenárias e debates. Afirma que se trata de um importante instrumento para a biblioteca comunitária ser tipificada como de acesso público. E fez críticas ao decreto que determina que a gestão municipal deva escolher os integrantes da sociedade que vão compor o conselho que vai acompanhar a sua implementação.

Afirma que os planos municipais de leitura são um caminho para ir além da disputa de editais entre os mesmo atores e uma alternativa para formar leitores sustentáveis, guardiões da memória que ocupam os territórios que habitam. “Como coexistir e mensurar o impacto?”, indaga. “O cenário atual é desencanto, de programações reduzidas, de orçamentos congelados. Temos que multiplicar as rodas de leitura e trocar raízes com a comunidade para formar leitores por toda a vida. Isolados a morte nos espera, a resistência tem que ser coletiva. E sem política pública não teremos um país de leitores”, disse.

Javier corrobora que o modelo ideal para a ampliação de leitores é aumentar a integrar a comunidade e fomentar a independência do governo. O bibliotecário argentino aprofundou alguns dos projetos realizados pela Comissão Nacional de Bibliotecas Populares (Conabip), a organização que atua em rede e que congrega 2 mil bibliotecas populares.

Falou mais atentamente da formação de acervo e do desenvolvimento de coleções. A entidade promove a compra centralizada e um trabalho de logística para distribuir os títulos em todo o país. E faz a aquisição colaborativa e descentralizada com o projeto Libro %. A comissão paga a viagem de 200 bibliotecários para Buenos Aires e dá uma verba para a aquisição de títulos na Feira Internacional do Livro, o maior evento editorial do país. Por meio de parcerias com editoras, os descontos chegam a 50% em cerca de 200 obras.

No total, 900 bibliotecas participam do programa. “Quando se trabalha em conjunto, temos uma maior capacidade de compras. É necessário falar com o associado e dar liberdade para ele. Cada um compra da sua maneira, de acordo com o seu interesse. Eles têm fome de participar do Libro %“, relatou.

Além disso, a instituição publica documentos técnicos com boas práticas para assessorar e capacitar as bibliotecas populares, que por vezes, carecem de um profissional especializado. Um dos temas é o descarte e a reciclagem de livros, que pode ser uma fonte de recursos para estes centros culturais.

Ainda em acervo, Javier relata que algumas unidades do interior contam com uma biblioteca de sementes, o que é uma interessante forma de atração de novos usuários e de manter o equipamento cultural em evidência na imprensa. O argentino fala que essa experiência acontece em várias partes do mundo e que mais do que replicada, foi adaptada para a realidade local.

Cita o exemplo de Necochea, cidade litorânea de 65 mil habitantes localizada na província de Buenos Aires. A biblioteca local implementou a novidade e conseguiu um outro uso e vigor para o espaço. Os jovens da periferia passaram a pegar as sementes e criaram hortas orgânicas.

A Conabip realiza ainda a assessoria para a formalização das bibliotecas populares. Na Argentina, como no Brasil, existe a burocracia para conseguir certidões e documentos e se criar uma pessoa jurídica. Este instrumento é essencial para conseguir verbas da entidade, que são repassadas pelo governo federal. Além disso, o processo permite ter acesso aos bancos e pressupõe uma prestação de contas.

E essa prestação de contas não é somente no âmbito financeiro. A entidade recebe das bibliotecas populares “un montón de información“, que serve para a análise e desenho de políticas públicas. Uma das ferramentas é um sistema informatizado georreferenciado, que permite plotar mapas com dados das unidades e dos municípios que as sediam.

Este trabalho é feito em paralelo com o Ministério da Cultura argentino, que também conta com bancos de dados estatísticos. A Conabip já chegou a realizar um pequeno censo, ainda que experimental, na cidade de Corrientes. Lá, estudantes de biblioteconomia visitaram os espaços culturais e fizeram a captura das informações in loco.

No Brasil, Bel comentou que o Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas (SNBP) tenta há anos realizar um processo sistemático de mapeamento, mas que são necessárias verbas específicas. Outra questão é que no país ainda existe carência de profissionais de bibliotecas. Procurando preencher este vácuo, o LiteraSampa fez uma parceria com uma universidade paulista e desenvolveu um trabalho de formação e capacitação de colaboradores e voluntários.

A mesa-redonda mostrou que existem muitas similaridades do que diferenças entre os países vizinhos. E que este intercâmbio de experiências leva a um aprendizado para criar alternativas e tecer um caminho comum. A programação do último dia do Seminário Biblioteca Viva prosseguiu falando de questões de gênero, território, mediação de leitura e o papel da biblioteca neste contexto. Confira mais posts no blog oficial do evento —> https://bibliotecaviva.org.br/blog

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