“Praticar o humor é um exercício de liberdade”, disse a cartunista Laerte no Seminário Biblioteca Viva.

 

A chargista e cartunista Laerte foi convidada para uma palestra no Seminário Biblioteca Viva, nesta quarta-feira, 25 de outubro. E o bate-papo literário foi hilário. Ela não só abordou a transgeneridade e a sua militância em questões de gênero. Não só falou de seu processo de trabalho e criação ou contou sobre a história dos quadrinhos no Brasil – um passado e um presente em que figura como nome de inegável importância. Não só projetou sua obra para um futuro ainda desconhecido e em construção. Não só contou piadas – uma a cada dois minutos. Ela refletiu sobre as mudanças da sociedade e a busca por igualdade em todos os sentidos. Ela mesma é um exemplo que inspira mudanças e novas atitudes. E o exemplo é sempre algo transformador. “Praticar o humor é um exercício de liberdade”, disse, em um das incontáveis frases dignas de registro. Confira outras abaixo —>

 

Eu comecei na revista Balão, com o Luiz Gê. Era um fanzine e aquilo foi muito importante. Não era realmente desenho, era uma experiência com desenhos. O Salão de Humor de Piracicaba marca uma nova possibilidade criativa. A censura da época era feita de forma massiva. Nós começamos a planejar a resistência. Em 1974, ganhei a primeira edição do Salão e entrei para o Partidão. E passei a combinar o ativismo com a profissão. Comecei com a criação dos personagens, que eram ideias que derivam de outras ideias humanas. Algumas eram plágio. Passei a publicar nos jornais, isso passou a ser o meu trabalho.

 

Deixar as personagens de lado me trouxe perspectivas desafiadoras. O quadrinho propicia muito isso. Qual é o seu personagem?, sempre me perguntam, aqueles que não me conhecem. Pois os personagens têm uma série de atributos e uma carga emocional, sempre agem da mesma maneira, têm um histórico. Às vezes, você só propõe uma situação e o personagem faz a tira sozinho. Hoje é diferente. Gosto muito de fazer desenhos de nú. Montei um atelier com meu filho, Rafael Coutinho. E a coisa deixou de ser mecânica. Voltei a descobrir que eu desenho.

 

Hoje não existe censura. Existe a tentativa de estabelecer o politicamente correto como uma forma de censura. Isso é uma mentira. O que existe é uma perseguição de peças, exposições e daqui a pouco isso vai chegar nos livros e na literatura. E pode afetar a produção, ter artistas que não vão fazer alguma coisa por conta de um berreiro. Em 1964, tinha isso, uma censura prévia. Não era só o censor, que tinha o seu olhar. A gente também tinha um crítica. Isso faz com que a gente deixe de falar, abordar e sentir. A gente não pode sentir. É uma forma de agressão.

 

Desde o fim da ditadura, a manifestação do espaço democrático é um patrimônio. É fruto de uma construção e de uma militância. A sociedade hoje está mais empoderada. Antes quando você chamava alguém de bicha ou de preto, as pessoas não se defendiam, se sentiam humilhadas e inseguras. Hoje não. Esse movimento temos que manter e ampliar.

 

Hoje temos novos conceitos de liberdade, de atitude, de moral. As mudanças das pessoas no campo da afetividade e da sexualidade são maiores do que as da política. Mudou bastante. E assumir a homossexualidade me trouxe outro olhar. Tive problemas com a sexualidade por 36 anos, não conseguia admitir que tinha desejo por homens. Tinha algo errado. Três casamentos com mulheres foram para o vinagre. Isso me deixava num estado de ansiedade. Demorei para admitir que era viada.

 

Quando me propuseram fazer o documentário [Laerte-se, dirigido por Eliane Brum e Lygia Barbosa] eu pensei muito. Não gosto de ser objeto de atenção. Mas estava pra fazer um implante de seio e comentaram que eu seria o fio condutor de uma narrativa sobre transgeneridade. Aí mudei de ideia. E foram quatro anos de filmagem. E no fim, eu não sabia mais quem eu era. Quando eu vi a primeira montagem, fiquei muito emocionada, tocada. Uma vida não é uma história, ela tem muitas histórias. E eu acho que esse documentário tem muito do tempo que a gente vive.

 

A transgeneridade mudou a minha produção e obra porque vejo o humor de maneira diferente. Agora é mais difícil e desafiante. Eu acho que estou fazendo novas cagadas. Estou errando para o outro lado. E isso é muito bom. Reluto em aceitar que o que faço é arte. De alguma forma tem a ver com letras e literatura. É distinto delas, pois também tem uma narrativa gráfica. O que faço é muito específico. Mas me dá um prazer muito grande.

 

Estou fazendo uma obra que não é autobiográfica, mas de cunho biográfico. É um cara que vive de 1960 até agora. Estou em 1967 e já tem 40 páginas. É sobre sexo e política, são 40 anos de narrativa. Nunca fiz algo igual, tão grande. Estou vivendo todas essas histórias, juntando fatos, memórias e lembranças. Visitar o que fui para compreender o que fui e o que sou hoje.

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